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  • cinthia/alireti

SONOTECA: O chute na bola de futebol


O chute numa bola de futebol pode ser descrito – na minha sonoteca, claro – como um som seco, grave, que é carregado de um ponto para outro, ainda que seja só virtualmente audível. Depois que o pé bate na bola, o som é abafado, mas de alguma maneira, temos uma sensação de que o som continua até chegar no próximo chute, formando uma sequência, uma melodia sem notas, só chutes. É como o movimento das baquetas na pele de um tambor, de um bumbo, de um surdo, ou dos tímpanos. 


IMERSÃO I: Franz Schubert - Sinfonia n.1 em SibM (1813). Claudio Abbado, regente.

https://www.youtube.com/watch?v=cyZXxqkUXD4


Os "chutes", nesta sinfonia, foram escritos por um compositor austríaco de apenas 16 anos; que provavelmente não se interessava pelo esporte nacional do Brasil, mas sabia apreciar o som duro mas carinhoso de um chute numa bola de futebol. Algumas pistas para escuta: logo que a música começa, ouvimos vários chutes na introdução, com alguns intervalos entre um e outro, São chutes lentos, pesados, dados por pernas que demoram para se locomover. Mais pra frente (a partir de 1:10), o chute aparece como um ponto de interrogação numa pergunta, respondida pelo oboé e depois a flauta. Bom, se eu continuo a escutar, a VR me coloca num estádio de futebol com torcedores por toda parte, sem distanciamento social, sem máscaras, sem medo; tem horas que todo mundo grita, se emociona, e tem horas que a tensão é demais, todo mundo precisa estar bem atento, em silêncio ou falando baixinho… E segue assim, até a cena recomeçar (a partir de 5:38). Vitória garantida, claro.  


IMERSÃO II: Edgar Varèse - Arcana (1925-27). Orchestre National de France, 2018, Pascal Rophé, regente. 

https://www.youtube.com/watch?v=Bg3-Sdn4PPg


Logo no início da obra Arcana, nos perguntamos, que sequência de passes de bola espetacular é essa? Escrita por Edgar Varèse, um compositor francês que viveu boa parte de sua vida nos EUA, Arcana começa, literalmente, com uma melodia de "chutes", descrevendo o começo de um sonho que ele teve. No sonho, ele estava num barco (assim como eu me vejo agora na minha VR particular), experimentando a sensação do movimento brutal das ondas batendo, puxando, girando o barco. E ele (eu) lá, com medo do barco virar, com pensamentos horríveis, até que aparece um farol: luz!?!? ...acordou? Claro, mas não sabemos bem quando. 

Vários chutes por toda parte dentro daquele barco, viu…


...PPP… Interessante pensar em tímpanos sempre no plural, como um "naipe" separado, que anda aos pares, trios, "poliamor", dentro das sinfonias de Mozart, Haydn, Beethoven, etc, etc, etc...

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